quarta-feira, 14 de maio de 2008

Birthday girl


O único estado democrático (tant bien que mal) do médio oriente. Um oásis (passe o cliché) de cultura e chique. E é mais novo que a Sofia Loren...

Parabéns, Eretz Yisrael!

quinta-feira, 24 de abril de 2008

As Coisas Como Elas Não São


Vivemos em tempos confusos. O Berlusconi voltou a ser presidente. Os norte-americanos, depois de dois mandatos republicanos desastrosos, uma economia em recessão e uma guerra sem fim à vista, podem decidir por um terceiro mandato republicano, só porque o Hillary e a Obama se picam como duas peixeiras da Madragoa. E o presidente francês casou com um avatar da Françoise Hardy. Nesta era de ambiguidades e meias-verdades, é importante lembrar algumas verdades básicas e incontornáveis sobre as quais podemos construir os fundamentos de uma vida honesta, trabalhadora, e sóbria. Nomeadamente:


1 - Leggings não são calças. Você nunca roubaria uma carteira, um filme ou uma televisão, e é por isso que não faz downloads ilegais. Você nunca usaria um cinto à cintura de umas collants, nem um top justo com calças coleantes (mas se o fizer, pode postar fotos aqui que eu arranjo o espaço... preciso de mais leitores!). Por isso, antes de usar um par de leggings - que são basicamente collants sem pés e mais caras - com seja o que for que não tape o seu derrière e o seu frontière, pense duas vezes. É para o bem de todos.

2 - Os cães não usam roupa. Há dias, a minha cadela, que, tal como a dona, fica de mau feitio antes do café e do primeiro cigarro (mas como ela não fuma nem bebe café, tem sempre mau feitio), foi perseguida por um caniche de camisolinha e calças - juro! - de padrão Burberry cor-de-rosa. Em vez de o atacar e devorar, que seria a coisa mais misericordiosa a fazer, a minha cadela olhou para ele cheia de desgosto e pesar e suspirou. É uma senhora. Reparei que tinhamos passado por um quiosque que vendia roupa para cães. Em pequenos racks, com pequenos cabides. A única roupa que um animal pode usar é a que a natureza lhe deu: meias (no caso dos cães que têm as patas de uma cor diferente do corpo) ou boinas (no caso dos cães que têm uma mancha sobre o olho e a orelha, como uma pequena berette francesa estilo Mary Quant).

3 - As crianças não usam couture. Na verdade, as crianças usam muito pouco: baby-grows, vestidos ou fatos-macaco. E fraldas, convém. Se pertencemos a uma geração que sofreu os tormentos do sapato de verniz que belisca e do vestido de lã que pica, porque não quebrar já a cadeia de violência e abuso? Para quê inflingir a uma nova geração os horrores da «roupa boa»? Antes de comprar uma camisa Burberry, uns sapatos Escada ou um blazer Dior para o seu rebento, pense: será que ele vai a uma reunião de accionistas ou chafurdar numa poça de lama? Há um tempo certo para tudo, na vida. Se o seu filhote usar Chanel aos 5 anos, é bem provável que venha a comer areia e andar de esgorrega aos 50.


Lembre-se disto. Por um amanhã mais seguro.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A Minha Vida Dava Um Episódio-Piloto


Já todos ouvimos falar de racial profiling. É notório o excesso de zelo dos controladores de passaportes ou lá como se chamam os tipos que decidem quem é que entra num país (vivi muitos anos no espaço Schengen, não sei o que isso é). E um pequeno burocrata com um pouco de poder é mais perigoso que uma depilação brasileira com uma lâmina ferrugenta. Mas esta é a primeira vez que ouço falar de racismo literário ou aquilo a que poderíamos chamar memoriofobia:





Não li o livro, mas pelo que percebi o rapaz drogava-se, dava-se com meninas de má vida e depois foi ele mesmo um menino de má vida. Depois escreveu as suas memória, dando-lhes um encantador tom dandiesco e belle epoque. Parece louvável. Só que, pelos vistos, pode impedí-lo de fazer compras na Saks Fifth Avenue e de comer no Russian Tea Room - e, infelizmente, só uma dessas coisas é que se pode fazer online (passear no Central Park já se pode fazer online)

Este é o mais recente episódio na novela da memoriofobia. Nos últimos anos, os autores de memórias têm sido alvo de ferozes perseguições e estigmatizados socialmente. É certo que isso tem acontecido depois de venderem centenas de milhares de livros, mas ainda assim, é feio.

Augusten Burroughs retrata, em Correr com Tesouras, a sua adolescência, passada com o psiquiatra louco da mãe (a mãe «deu-o» ao psiquiatra, que tinha um certo hábito de adoptar crianças perdidas). É uma espécie de Mogli versão LSD. É claro que o psiquiatra e a família são mais loucos que qualquer louco; toda a gente está sempre encharcada em comprimidos, em relações disfuncionais e em aventuras sexuais predatórias. O livro é tão bom que, comentei com amigos, se lê como um romance. Na verdade, quando o li estranhei aquele «non-fiction» pespegado na contracapa. Depois de o livro vender uns milhões e os direitos para cinema estarem vendidos (belíssimo filme, realizado pelo senhor que nos trouxe Nip/Cut), a família do psiquiatra decidiu processar o autor, dizendo que se sentia difamada. Que, como se diz aqui pelos cafés sobre os jogos da bola, «não foi bem assim». Depois de um settlement de alguns milhões a favor da família, e de um final para o filme tão cor-de-rosa e falso como uma depilação brasileira feita em casa, não ocorreu a ninguém perguntar o óbvio: será que as memórias de um adolescente terão necessariamente de reflectir a verdade objectiva? Não será o valor da memória exactamente o de apresentar um ponto de vista único, efémero, localizado no tempo? Não será que a arte do memorialista consiste precisamente em recapturar essa visão específica de um período da vida?

Mas passou, de uma forma mais ou menos inofensiva, como a alergia à cera numa primeira depilação, e Augusten Burroughs continua a escrever e a vender bem. O próximo na mira, e esta mira foi bem mais pública, foi James Frey. O seu A Million Little Pieces descrevia a experiência de um alcoólico inveterado a desintoxicar-se. Um dos momentos mais marcantes do livro, daqueles que as pessoas contam umas às outras, perguntando «lestes aquela parte?», foi a descrição de uma ida ao dentista para uma desvitalização sem anestesia. Na altura James Frey já estava nos AA e não podia tomar qualquer forma de droga, incluindo novocaína. Desvitalizou o dente a frio para se manter limpo e sóbrio. Uau.

Afinal parece que não. Exagerou. Uma vez mais, não foi bem assim. Testemunhos vários sugeriram que ele tinha exagerado ou embelazdo alguns episódios. O trágico foi que, na altura em que se soube, ele já tinha ido à Oprah, chorado com a Oprah e sido abraçado pela Oprah. A Oprah dá poucos abraços e não gosta de os desperdiçar. Não foi a abraçar mentirosos que a senhora subiu na vida. Quando o gato saiu da mala, como dizem os ingleses, já o livro tinha vendido milhões. Depois de a Sr.ª Winfrey-Steadman ter mandado o James Frey voltar ao programa, admitir publicamente a mentira e pedir desculpa, a editora do livro fez uma coisa inaudita: retirou o livro de circulação e reembolsou os leitores que pediram o dinheiro de volta.

Foi então que eu fiquei preocupada, como quando se está a fazer uma depilação brasileira e se vê que a depiladora está há imenso tempo ao telefone, não faz tenções de desligar e a cera está a ficar picante. Devolver dinheiro aos leitores? Que raio de precedente era este? Com que base legal? Se isto começasse a pegar, iríamos ter as pessoas a devolver Os Maias porque acabava mal, A Sibila porque não se percebe metade, Cem Anos de Solidão porque tem demasiados personagens? Não, a razão era bem mais simples: A Million Little Pieces era uma memória, logo, não ficção. Na não ficção não se embeleza nem se exagera. Por isso o Stephen M. Hawking que tenha cuidado a usar metáforas, porque na não-ficção não há espaço senão para os factos.

O caso de James Frey foi bastante nótório porque o seu livro chegoua um público já abertamenter ávido de sensacionalismo. Isso tornou-se claro quando Frey se justificou dizendo que a editora o tinha pressionado para publicar o livro como memória (ele originalmente tinha pensado em transformar as memórias num romance) porque «vendia mais». O selo da «história verídica» lubrifica as vendas. A reality TV já não convence ninguém, mas aparentemente a reality literature ainda convence. Por alguma razão, os livros pulp dos anos 50, sobre histórias escandalosas de lésbicas, gays, travestis e depilações brasileiras, eram publicados como «histórias verídicas». Já não era o valor literário que estava em questão, mas a intensidade da sensação causada.

Com o misterioso JT Leroy, a história deu uma volta inesperada. Leroy escrevia ficção literária de qualidade. Os seus romances tinham, segundo se publicitava, uma inspiração autobiográfica. Eram sempre sobre adolescentes vítimas de maus tratos, forçados a prostituir-se com camionistas naqueles vilarejos pedidos no meio do nada atravessado por auto-estadas (donde, os camionistas) e tão sexualmente ambíguos que faziam a pantera cor-de-rosa parecer macho (ou fêmea). A sua obra ela elogiada pela crítica e por escritores mais que conceituados, e ia ser o próximo it boy da cena literária. Era tímido, andrógino, pelo que se via das poucas fotos disponíveis, só fazia entrevistas pelo telefone, e até o editor só o tinha visto uma vez.

Isso porque ele era Laura Albert, uma mulher de trinta anos muito, muito perturbada, que tinha inventado a persona de JT Leroy. Foi denunciada pelo namorado, cuja irmã, disfarçada com óculos oversize (que visionária!) e cabeleira loura, «posava» como JT Leroy nas poucas aparições públicas. Foi processada pela empresa que tinha comprado os direitos cinematográficos de um dos romances (o filme ia ser com Asia Argento e não lhes perdoo não terem ido em frente com o projecto!) e o julgamento foi, ao que parece, um interessante debate sobre a verosimilhança e o processo criativo. Guardo duas coisas deste processo: a tristeza que mostrava Laura Albert por todo este fuss - parecia uma criança a quem tinham morto o amigo imaginário, uma criatura tão indefesa e adorável quanto as suas próprias personagens; e o título de um dos seus livro, das coisas mais bonitas que já vi: The Heart Is Deceitful Above All Things.

Enquanto eu me ia preocupando com a possibilidade, que me parecia cada vez mais real, de exumarem Fernando Pessoa e o sentarem no banco dos réus por falta de pagamento de impostos da parte dos seus heterónimos (com o presente estado das coisas, não sei se a inexistência física dá isenção), aconteceu o mais recente caso: Margaret Seltzer, sob o pseudónimo de Margaret B. Jones, escreveu Love and Consequences, memórias da sua adolescência como gang-banger e traficante de droga numa zona perigosa de LA, onde vivia num lar de acolhimento. Desta vez, a revelação nem demorou uma semana, os livros nem chegaram a aquecer as bancas. Margaret Seltzer cresceu com os paizinhos numa zona confortável e burguesa de LA. Se usou bandanas, foi com laço à coelhinho, como boa betinha. A editora fez aquilo que, agora, é da praxe: retirou os livros do mercado.

A propósito de tudo isto, saiu uma charge engraçada no International Herald Tribune:




E lembrei-me de uma cena de O Detective Cantor, em que um psicanalista diz a um autor: «Li o seu livro. Está cheio de pistas.» E o autor responde: «É um livro. Está cheio de páginas.»

Platão dizia que não admitiria poetas na sua república, porque eram fabricantes de mentiras. Por isso há cerca de 8 000 anos que se sabe que os escritores são fingidores, mentirosos, fabricantes, fazedores. As intricâncias legais acerca da catalogaçãodos livros - ficção, não ficção, memória, história, ensaio, depilação brasileira, whatever - não nos devia fazer esquecer que tudo o que é escrito em ozalides, desde os dez mandamentos até ao Sei Lá, contém, como qualquer espelho, elementos de distorção.

Adorava que os juízes de todos estes casos de difamação, fraude e outras acusações absolutamente esticadas contra autores (de livros que o público e a crítica tanto louvavam), pronunciassem uma sentença de: «Get a life. and I don't mean in paperback.»

E depois os queixosos ficavam proibidos de fazer depilações brasileiras no Verão mas, numa exebição de sadismo judicial, eram obrigados a fazê-las no Inverno.


PS - A foto é daquela pessoa que não existe, JT Leroy.

domingo, 23 de março de 2008

quinta-feira, 20 de março de 2008

Trash and Treasure


Às vezes, quando não tenho muito mais que fazer e está demasiado frio para ir à praia ou demasiado calor para não ir, penso na relação entre os EUA e a Europa. O que é nós pensamos deles? O que é que eles pensam de nós? Será que odeiam os franceses? Será que os franceses os odeiam? Porque é que há música da Dulce Pontes a passar em filmes do Richard Gere? Porque é que todas as sitcoms têm pelo menos um personagem inglês que é excêntrico e adorável? Porque é que a Nely Furtado existe (não, a sério, porquê?)? Porquê a história das «liberty fries»? O que se passa? Que estranha relação é esta?

Uma vez, a filha da editora da Vogue francesa estava numa festa em Nova Iorque e alguém lhe disse qualquer coisa a respeito dos sapatos dela. E ela respondeu: «Eu sou europeia, acordo de saltos altos!». Ou seja, por um lado, ser europeu é usar pérolas, maquilhagem invisível, jóias óptimas mas discretas e fumar vogue slims - é ser a Jacqueline Bouvier K.O. É BCBG.

Por outro lado... ver acima. O próprio conceito de eurotrash. Europeia é a Donatella Versace, com as suas péssimas extensões de cabelo descolorado, pele de cabedal e apresentação de, em geral, bradar aos céus.

Por isso resolvi brindar os leitores deste blogue (sim, ambos!) com uma fotografia que tão bem ilustra esta dicotomia: a dotty old dowager Versace ao lado da adorável pequena Gossip Girl, uma discreta charge à Jackie Kenneddy.
Já agora, leiam a entrada a respeito no Go Fug Yourself, que tem piada e rir faz bem à pele:

quarta-feira, 12 de março de 2008

«Já ninguém lá vai, está sempre cheio»


Há tempos vi um anúncio, numa agenda, de um curso. Como estou sempre à procura de aprender coisas novas, como macramé, braille e trivialidades acerca de bairros históricos (sim, perder tempo faz-me sentir viva!), li atentamente. Era um curso de [sic] cooltura. Consistia em seminários de culinária, guionismo e, creio, introdução ao design.

Como qualquer pessoa que foi profundamente incoolta durante grande parte da vida, dei graças aos anjos e santos do cool por haver finalmente um curso de acesso a esta hermética disciplina. No meu tempo de adolescente, ser cool era um exercício de incalcoolável precisão. Era visível que se tinha de usar certos jeans (Uniform, Levis, Chevignon, El Charro), certos sapatos (Portside, All Stars), certos chumaços, certos brincos de aros do tamanho que ia do mediano à sevilhana, um certo esgar, uma certa permanente. Ouvir certa música (Guns n' Roses), ir a certos sítios (Coconuts, Bauhaus). Ok, estou a localizar-me geografica e históricamente, mas percebem o que quero dizer. Mas mesmo que se usase e fizesse tudo isto, havia sempre algo que escapava se não se fosse natural e intrinsecamente cool. Era como se o todo fosse mais do que a soma das partes. O cool foi o meu primeiro exercício mental com a inefabilidade, uma experiência quase mística.

Com este curso, pensei, talvez tivesse descoberto o coolcanhar de Aquiles da gente bonita. Afinal, é tudo tão simples: ser proficiente na criação de boa comida, bom entretenimento e coisas bonitas.

Antes tarde do que nunca, pensei, com um suspiro. Agora, sim, ia poder conviver com os melhores, com as pessoas que conhecem as pessoas que conhecem as pessoas, com os gurus do estar-bem-consigo-mesmo. Nem preciso de acrescentar que, em consequência, viria a ser feliz, completa e realizada. Bastava cozinhar um risotto com queijo de hamster e pardal levemente salteado; escrever um episódio-piloto de uma sitcom sobre um vendedor de seguros que é um arquitecto visionário latente, com grandes planos da skyline de Manhattan sobreposta à Baixa da Banheira; e fazer um candeeiro com lápis Caran d'ache usados até ao boto.

E, subitamente, as perspectivas profissionais também se abriram como um horizonte vasto e infindável. Podia tirar mestrados atrás de mestrados - estudar a cooltura europeia (ir a pubs com uma atitude retro e irónica, a houseparties tão exclusivas que estão vazias, e ouvir música tão underground que ainda nem foi escrita), cooltura judaica (cabala para perder peso, música hassidica de brooklyn em remixes pós-punk e bares fixes em Tel Aviv) ou até antropologia cooltural (fazer biópsias a celebridades em busca do gene do cool; será um gene? uma mutação? um retrovirus?). Podia trabalhar como adida cooltural em embaixadas e definir quais os sítios must em qualquer país com o qual tivessemos relações diplomáticas, ou sugerir países cool com os quais entrar em guerra para invadir e entrar de graça nos melhores sítios. Ou como consultora cooltural em empresas e decidir quem são os executivos in e out («sim, ele é um génio com a fiscalidade, mas ainda usa gravata às riscas!»).

Contudo, tudo isto coolminou com uma estranha associação entre imagens e palavras. Subitamente, veio-me à mente a fotografia que está na abertura deste post: a Becks a entrar num desfile Chanel. E lembrei-me depois de uma entrevista com Mademoiselle, já muito velha, na qual ela passou todo o tempo a tirar um lenço de uma manga e a pôr na outra, com um ar de inigualável desdém, e a perorar acerca dam essência da elegância. A certa altura, comentou que achava a mini-saia abominável, porque mostrava os joelhos, que numa mulher são raramente bonitos. Ver a Becks, vestida numa homenagem à maquilhagem dos anos 80 no seu pior, sob o nome desta senhora, lembrou-me que o melhor que tinha a fazer era fechar a agenda e deixar de ser tão calcoolista. Afinal o cool é como a mini-saia: só mostra as partes de nós que raramente são bonitas.
Ah, o título é uma deixa do Groucho Marx.

sexta-feira, 7 de março de 2008

As Mulheres


O meu filme favorito de todos os tempos, aquele que eu levava para uma ilha deserta (ou para uma ilha ou para um deserto) é The Women, de George Cukor. Foi feito em 1939, escrito por Anita Loos e Clare Booth Luce (uma dupla criativa que só tem rival na dupla «Fome» e «Vontade de Comer»), tem uma passagem de modelos a cores a meio e tem frases como:
«Ele era capaz de partir um côco com os joelhos, se conseguisse fechar as pernas»;


«A primeira pessoa que conseguir explicar como é que um homem pode estar apaixonado por duas mulheres ao mesmo tempo vai ganhar aquele prémio que estão sempre a dar na Suécia!»;


«Há um nome para mulheres como vocês, mas não se usa em alta sociedade... fora de um canil»;


Mãe para a filha: «Confia em mim, filha. Eu já era uma mulher casada antes de tu nasceres».


E oh, tantas, tantas outras! São 133 minutos de bitchiness e diálogos mais bem trabalhados que um diamante da Cartier. E é uma jóia enfeitada com as gemas mais cintilantes: Norma Sherarer é a angélica heroína; Joan Crawford a má da fita; Rosalind Russell a cómica e desastrada sidekick; Paulette Goddard a durona amistosa; e Mary Boland a deliciosa figura de comic relief à décima potência.




Quando soube que ia ser feito um remake, fiquei contente. Não sou nada conservadora nestas coisas; se, como dizia Oscar Wilde, a imitação é a forma mais sincera de elogio, o remake é certamente a forma mais cara, mas ainda asim um elogio. Mas a minha alegria desvaneceu-se quando vi o elenco escolhido para esta versão, a sair em 2008: Meg Ryan em vez de Norma Shearer; Eva Mendes em vez de Joan Crawford; Bette Midler em vez de Mary Boland . Sinceramente, foi como se tivesse ido a um restaurante e pedido um risotto de porcini com azeite trufado e gorgonzola (que exagero!) e me tivessem dito: «não temos, mas posso fazer-lhe um arrozinho de tomate com peixinhos da horta».



Vamos admitir que o cinema contribui, ainda que de forma marginal, para a construção do imagético social de género. Assim sendo, The Women de 1939 era uma afirmação do ideal feminino da sua época, uma espécie de cápsula do tempo que diz às gerações vindouras: «Estas são as mulheres de hoje: educadas, sofisticadas, inteligentes, engraçadas, complexas, profundas. Fabulosas a cada frame.» Feitas as devidas ressalvas e tomando em conta o câmbio do dia do glamour (um cêntimo do glamour de Cukor dava para comprar cem starlets dos nossos dias), o cast de The Women de 2008 é embaraçoso. Não são mulheres, são meninas. Nalguns casos, meninas com grandes implantes nos lugares certos, mas meninas ainda assim. Incapazes de um gesto mais magnífico que o beicinho, de uma expressão mais complexa que o morder o lábio inferior tremelucente. É como se este filme tivesse sido feito 70 anos antes, e não depois,do original. É um premake.



A crescente infantilização da mulher é preocupante. Não estou só a falar de celebridades cada vez mais novas, de mulheres que só pegam num livro se a Oprah mandar, que com idade para terem juízom ainda fazem beicinho ou que gastam metade do salário em sapatos. Nem sequer estou a falar de como o ideal da fada-do-lar se está a insinuar lentamente no seio da nossa cultura. Estou a falar de como passámos deste estado (ver foto acima)


a este








Uma mulher pode vir a ser uma senhora, e uma senhora pode vir a ser tudo; uma menina só pode vir a ser uma gaija (com i de infantil).




B'jinhos, lindas!