sábado, 4 de outubro de 2008

Nem Tanto ao Touro, Nem Tanto ao Urso


Há dias li este artigo no New York Times acerca de um editor lendário (a ver se consigo pôr o link, este blogue anda parvo, deve ter um hedge fund da Goldman Sachs e anda meio avariado). Não sabia que ele era lendário até ler o artigo e ver que tinham feito um documentário sobre ele. Se é sujeito de um doc., pensei logicamente, devia ser lendário. Mas ao que parece o senhor era mais ainda que lendário: era aquela coisa muito admiravelmente americana, um «maverick». Publicou Genet, Henry Miller e D. H. Lawrence. Bons tempos em que se podia ser só um erotómano vagamente misógino para se ter um trabalho interessante e emocionante. Em que não se tinha de passar oito horas por dia à procura do próximo Segredo, Rio das Flores ou Alquimista. Não pensem que estou a dizer isto com a amargura de quem já recebeu dezenas de cartas de rejeição de editores e se considera um génio ignorado; digo isto com a amargura de quem passa dezasseis horas por dia à procura do próximo Segredo, Rio das Flores ou Alquimista. Ou do próximo «ensaio» sobre crianças mortas/raptadas/desaparecidas. Se existisse um um autocolante a dizer «I'd rather be publishing obscure avant-garde», punha-o no meu carro, podem ter a certeza.
Gosto sempre de ouvir estas histórias de projectos cheios de paixão e entusiasmo. Embora, tal como visitar os museus de história judaica, se saiba que vai sempre acabar mal. Estes projectos louváveis raramente acabam com os fundadores a tomar banhos no dinheiro que acumularam numa caixa-forte e a afagarem a sua primeira moedinha (embora haja boatos de que os fundadores do Google, do Facebook e o Steve Jobs façam isso mesmo). O que mais me chamou a atenção neste artigo foi o comentário do maverick em questão, a propos de a editora ter acabado na falência: «We got rid of the money».
É capaz de ser uma das atitudes mais admiráveis que alguma vez vi. Não perdeu, nem esbanjou, nem geriu erradamente o dinheiro: simplesmente livrou-se dele, como quem se livra de cabeças de espargo a mais quando está a fazer um risotto.
Não me entendam mal. Ambos os dois leitores deste blogue sabem que eu não advogo a pobreza franciscana nem escolheria, para mim ou para os meus entes queridos, uma vida de abdicação e despojo, a comer raizes e a calçar birkenstocks. A pobreza em excesso causa morte lenta e dolorosa, e tenho quase a certeza que reduz o fluxo de sangue e causa impotência. Mas agrada-me muito esta ideia  de, mais que despojamento, um saudável alheamento do lado financeiro da vida.
Isto muito a propos da crise nos EUA, que tem sido noticiada por aguns media mais estridentes como «o princípio do fim do capitalismo». Acho que ainda não estamos próximos de reconstruir o muro de Berlim, mas é sempre altura de repensar alguns dos excessos, não do capitalismo enquanto sistema social e económico, mas do mercado livre enquanto influência num dos aspectos menos felizes da personalidade humana: a ganância. 
Há tempos ouvi o Richard Ford, autor de alguns livros que podem, a meu ver, ser considerados a incarnação do great american novel, a ler excertos do seu mais recente, The Lay of the Land. A sua obra tem muito sucesso em França, porque é ponderosa, reflexiva, filosófica, melancólica, escrita com uma atenção quase masoquista à elegância do estilo, e este último, por exemplo, tem 500 páginas e passa-se ao longo de um só fim-de-semana. Trés français, sem dúvida. O Sr. Ford é também um acérrimo opositor da administração Bush. Na apresentação do livro, escolheu ler, entre outros, um excerto que incluía a seguinte passagem:

«Except everyone's entitled to some glimmering sense of right in his (or her) own heart. And part of that sense of right - for real estate agents, anyway - involves not just what something ought to cost (here we're always wrong) but what something can cost in a world still usable by human beings.»

Indeed.