quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Superação do Almoço pela Análise Lógica do que Diz a Senhora do Lado


Num opúsculo chamado A Superação da Filosofia pela Análise Lógica da Linguagem, Gottlob Frege postula que toda a Filosofia, sobretudo a Ontologia, não passa de uma falácia lógica baseada numa substantização indevida de elementos essencialmente linguísticos. Dito de outra forma: a Ontologia está toda mal porque pensa que há coisas que não há. Segundo Frege, a Ontologia assenta toda ela no conceito de Ser, conceito esse que, não correspondendo a nada de verdadeiro e exeistente, não pode ser base de ciência alguma. A Filosofia, diz ele, basicamente, mais valia estar a estudar unicórnios ou o sexo dos anjos, em termos de resultados cientificamente viáveis e/ou práticos. Um exemplo que Frege dá da incorrecção do conceito de «ser»: quando se diz «está a chover», ninguém se lembra de perguntar «quem» ou «o que» é que está a chover. O estudo da ontologia é mais ou menos como fazer essa pergunta: presumir a existência de algo quando ela não... existe. Pois. A Ontologia, a sério, é uma tripe.

Ora, hoje ao almoço a senhora que estava sentada ao meu lado, que não era de Ontologia, acho que é da tesouraria, mesmo, refutou Frege e toda a escola da Filosofia Analítica de um só golpe. Ela disse:

«Hoje o tempo vai chover.»

E embrulha!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Tive Dois Anos para Deixar Crescer Garras, Mãe: Encarnado-Selva!




Eu fí-lo, finalmente fí-lo! Que se lixe a modéstia e a discrição que se vá pôr num porco: pintei as unhas de encarnado! E não é um encarnado qualquer - um encarnado maçã-da-Bela-Adormecida, encarnado-Capuchinho-Vermelho, encarnado-ressaca-anos-80!


Não é que eu seja uma pessoa muito dada ao recato e ao pastel em geral. Antes pelo contrário. Desde que comecei a pintar as unhas (uma aventura recente) que me tenho deleitado com cores como o rosa-choque, o verde-pinheiro, o azul-elétrico, e o amarelo-Calipo já está na wish-list. Mas o encarnado era uma ponte longe demais. Porquê?


A explicação é simples e previsível: um trauma de infância. Quando eu e as minhas primas tinhamos aquela idade em que usavamos ganchos com brilhantes, ouvíamos Ministars (não se riam, seus bandalhos, vocês também ouviam!) e eramos capazes de nos vestir inteiramente de uma só cor (incluindo leggins de Inverno, aqueles de lã mais densos e grossos que um pudim, usados com botas - botins!), aquela idade mágica e quase proustiana em que o pandan nunca é demais e glitter nunca enjoa -- nessa idade, dizia, eu e as minhas primas tinhamos verniz. Não lembro como nem porquê, mas lembro-me que quase todas as crianças portuguesas da minha idade tinham acesso a coisas que hoje seriam consideradas inapropriadas ou até mesmo tóxicas, como tintas para os cabelos (das bonecas), vernizes e perfumes e batons (para nós, feitos clarmente de plástico radiocativo), pulseiras que pelavam e gomas de cores que indicavam claramente que estavamos a comer corante com açucar.


Sentadas à mesa da cozinha, eu e as minhas primas estavamos cuidadosamente a aplicar a 20ª camada de verniz quando a minha Tia Alice gritou, para choque e consternação de todas: «Mas vocês estão parvas? Que pirosas, parecem umas sopeiras! Já a tirar isso».


Ficamos demasiado atordoadas para sequer pensar em nos queixarmos. Na altura, embora isso fosse falado pelos crescidos da família e proximidades afectivas, não sabíamos que:

a) A Tia Alice se auto-medicava.

b) A Tia Alice bebia.

c) a) e b) concidiam frequentemente.

d) Uma mulher de quarenta anos que prefira estar com crianças quando há adultos por perto não é de confiança para muitas coisas, incluindo conselhos de moda.

e)Uma mulher adulta que tire algum prazer em questionar o fashion sense de crianças de 8 anos pode apresentar perturbações psiquiátricas.

f)A Tia Alice era uma cabra.


Alguns dos comentários de a) a f) foram expandidos e reiterados pelas nossas mães e amigas, quando nos viram a entrar na sala, mudas que nem ratos e de mãos vermelhas de tanto esfregar (e já não encarnadas de tanto verniz). Ainda nos tentaram convencer a não ser parvas e não ligar (porque é que as crianças passam a vida a ser admoestadas para não serem parvas? São crianças, não são ministros nem CEOs, podem ser parvas à vontade!), mas a verdade é que, nos 25 anos que se seguiram, continuei a não ser capaz de pintar as unhas de encarnado - embora tenha feito muitas outras coisas pindéricas e sopeirentas.


Mas hoje, aha!, acabou-se a tirania mental! Tome lá esta, Tia Alice, misture no seu martini e embrulhe!


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Felicidades!


Minha querida Kassata, muitos p.'s pelo bolinho que tens no forno! Vai ser o doce mais doce...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Mas qual?





Uma pergunta que assola frequentemente a mulher de hoje, nos seus raros momentos de descanso, é: “Como posso ser mais regular?”.  Depois, quando a mulher moderna já comeu fibras de manhã durante 14 dias e tem mais tempo para pensar, pergunta-se não poucas vezes: “Se eu tivera sido uma diva, que diva tivera eu sido?”. Uma que conjuga verbos correctamente? Não sei. Mas, para descobrir, basta fazer o teste que tão gentilmente lhe ofereço, a si, mulher ou homem moderna:

 



Quando vai até à varanda:

a)    Fuma um Vogue Slim, contempla languidamente o Central Park e pensa que pedaço de património da cidade vai salvar a seguir.

b)   Dirige-se à multidão embevecida que a espera com cartazes de louvor e gritos de admiração, mostra as jóias, faz gestos bem ensaiados e pede-lhe para não chorarem por si porque a verdade é que você nunca os deixou.

c)    Dirige-se à multidão enraivecida que leva a cabeça dos seus guardas em espigões e clama pelo seu sangue, e desarma-os momentaneamente com um gesto de inaudita elegância, antes de fugir pela vida.

d)   Acena ao longe, sorri, recebe os bouquets de rosas e prepara-se para as perguntas dos jornalistas.

 

O maior insulto da sua vida foi quando:

a)    Mataram o Bobby.

b)   Você confessou àquele almirante inglês que ficara chocada quando um atrevido na multidão lhe chamou “puta” (a si, não ao almirante) e ele respondeu: “mas é natural, minha senhora, eu há anos que não ponho os pés num navio e as pessoas ainda me chamam almirante.”

c)    Já perdeu a conta, mas a falta de empatia pela morte do Delfim foi marcante.

d)   Aquela ovação condescendente no último recital.

 

O seu maior embaraço ou trauma de família é:

a)    O pai, que caiu de bêbedo antes do seu casamento e nem a levou ao altar.

b)   Quem não tem família não tem embaraços. A minha família é o meu marido e o meu trabalho.

c)    A mãe, que nunca está satisfeita consigo.

d)   A mãe, que a tenta explorar desalmadamente e diz a quem quiser ouvir que você é uma ingrata.

 

Não sai de casa, nem sequer da cama, sem:

a)    Pérolas, três fiadas.

b)   Pérolas, ouro, prata, platina, chumbo, safiras, rubis, esmeraldas, casquinha, diamantes e o que mais couber.

c)    Pérolas, no cabelo, claro.

d)   Pérolas, uma fiada, e um anel do tamanho da cara.

 

O amor da sua vida é:

a)    Os filhos e os amigos.

b)   O meu marido.

c)    The one that got away.

d)   O amante que a abandonou.

 

O seu maior medo é:

a)    Oh, a mim há muito tempo que me tiraram o medo!

b)   A solidão, nem que seja por um segundo.

c)    Falhar, desiludir aqueles que acreditaram em mim.

d)   Falhar, desiludir-me a mim mesma.

 

O seu trabalho é:

a)    A sua vida, no sentido em que a sua profissão é ser quem é.

b)   Fazer tudo o que puder pelos outros, pelo meu marido, por um bem maior, pela minha causa, e nunca parar nem desistir.

c)    Muito complicado, vago, abrangente e não sei muito bem em que consiste.

d)   Um dom e uma maldição, que traz prazer aos outros e a mim, só alivio quando não falho.

  

No instante antes de morrer, pensa:

a)    Só mais um dia.

b)   Só mais uma vida inteira.

c)    Só mais um minuto.

d)   Nem mais um minuto.

 

Arrepende-se de:

a)    Nada. No fim, tudo acabou por ser necessário. Não podemos separar o bem do mal, e talvez nem tenhamos de o fazer.

b)   Não ter feito mais, não ter trabalhado mais, não ter amado mais.

c)    Nada. Fiz tudo o que podia quando o podia fazer, e sempre com a melhor das intenções. Para ter uma vida diferente, teria de ter sido outra pessoa.

d)   Em um só momento da vida, não ter dado tudo por tudo. Mas não sei em que momento o devia ter feito.

 

 

Faça lá a sua introspecçãozinha (agora com as fibras todas que tem comido até deve ser mais fácil) e responda. A solução vem no próximo post.



 

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Noçãolos


Estou sem palavras.
Sprachlos, até diria.
Para os um leitor deste blogue que não saiba, tenho andado a dar no alemão. Já há algum tempo, na verdade, mas ultimamente tem-se tornado mais grave. Saco revistas de moda alemãs de há dois anos do mull (caixote de lixo) da biblioteca -- o que sempre dá jeito para saber o que se vai usar em Lisboa daqui a dois anos --, levanto discos em alemão da mediateca (recomendo vivamente esta pequena Carla Bruni/Rommy Schnider wanabee, Anette Louisan), estou ler, muito langsam (devagar) um romance juvenil alemão e a fazer um curso intensivo de um mês antes de começar o próximo ano lectivo.
Intensivo. Isso devia ter-me posto de sobreaviso. Intensivo foi o que os alemães fizeram a Londres durante a Blietzkrieg (em português, dar cabo do canastro com bombas) e aos judeus da Europa.
Mas nada me preparou para o que experienciei na aula de hoje. Isto.
Sim, a ideia preconceituosa que as pessoas têm dos alemães é redutora: eficientes, frios, sistemáticos, organizados. E sim, deve ser difícil pertencer a um país cuja imediata associação é com o genocídio.
Mas isto... O que se pode dizer de um país onde há uma CANÇÃO que ajuda a DECORAR as conjugações dos VERBOS IRREGULARES?
Ocorreu-me - no sentido em que passou em rodapé na minha mente a cada interminável segundo da canção - uma única palavra, do nosso rico e não-declinado português:
FO-DA-SE!
E acreditem que ISTO, ouvido numa sala rodeada de portugueses a tentar desesperadamente não corar, não olhar uns para os outros e não rir, parece interminável.
E agora -- isto tem um lado The Ring -- tendo ouvido isto, caros leitores deste blogue, tentem lá não ficar a cantarolar verbos irregulares na terceira pessoa do singular do presente, pretérito e perfeito.
É, não é? Ah, pois é.


quarta-feira, 1 de julho de 2009

Medmoiselle!


Finalmente, aconteceu.
Eu sabia que este dia ia chegar, mas nada me preparou para isto.
Está uma pessoa tranquilamente a comprar tabaco. Pede uma pessoa para trocar dinheiro para a máquina de tabaco. Aproxima-se uma pessoa de trocos na mão da máquina de tabaco. Vê uma pessoa duas crianças de fato e gravata (sabe a pessoa que são crianças porque as mangas dos fatos dão-lhes até às falanges e têm as gravatas enfiadas dentro das camisas. E usam os óculos de sol como bandeletes o que, a sério, faz a pessoa pensar onde irá parar esta juventude).
E ouve a pessoa:
"Olha lá, deixa passar a senhora".
A SE-NHO-RA!
Se a pessoa estivesse vestida com as calças de ganga de domingo, que a pessoa já tem desde antes da queda do Muro de Berlim, e com a t-shirt de sábado (que tem mais manchas que o Muro de Berlim), e a carregar sacos de compras, vá, ainda se compreendia.
Mas vindo a pessoa fresquíssima e arranjadíssima de uma reunião (de trabalho, não dos AA), com um impecável vestido vintage (passe o oxímoro) e umas encantadoras melissas, pergunto:
A pessoa merece isto?
A pessoa não merece isto.
Tive de fazer um esforço considerável (nada recomendável, na minha idade) para não gritar que senhora devia ser a puta da mãe dele. Se não fosse pelo medo de ouvir algum comentário acerca das flutuações de humor típicas da menopausa, tinha desatado a chorar no ombro da colega com quem estava a tomar café. Tal como não sabe que as gravatas são para usar por cima, e não por dentro, das camisas, e os óculos para usar nos olhos e não no cabelo, esta criançada não distingue idades a partir dos 25 e aglomera-as todas na abrangente categoria de pessoas que não têm o cartão jovem (será que ainda há cartão jovem? Os jovens ainda usam cartão? Ainda se diz jovens?)
O que vale é que o New York Times, essa senhora ainda mais provecta na idade do que eu, me preparou para o inevitável com este delicioso artigo.
*suspiro* Pois é. Está na altura de me juntar à tribo das Coco Chanéis, das Mrs. Havisham, das Isabella Bowes (que era uma falsa velha, ou velha mais em espírito) e das Wally Simpsons-Windsors do mundo. Na verdade, uma das minhas ambições na vida sempre foi a de ser uma velha excêntrica. Imaginei algo como ir comprar o jornal de papagaio ao ombro, fazer-me de surda para turistas que me pedissem indicações, ensinar os netos a fazer cocktails, congestionar as ruas tentando ler cartazes de concertos a partir do meio do passeio e depois pedir aos transeuntes mais stressados que me explicassem como se pronuncia "ticketline", desenhar grafittis ordinários nos albuns de família, rir-me das conversas de desconhecidos em cafés e dizer num stage whisper "ora agora!" (por acaso isso já faço). Ou filiar-me no Bloco de Esquerda, não sei algo que me fizesse parecer alienada mas não o suficiente para ser internada.
Mas pensei que tinha mais tempo (famous last words). Não sabia que era para já, que ia ter de começar a ser uma velha excêntrica quando ainda sou mais nova que a Wally era quando fisgou o Duque de Windsor!
*suspiro redobrado*. Bem, acho que vou seguir a sugestão do Times. Vou vasculhar as minhas gavetas de roupa interior para encontrar umas meias que sirvam de acessórios para o cabelo, comprar umas camisetas às riscas para usar debaixo de camisas de flanela atadas num nó à cintura e caçar umas aves para usar penas como fashion statements. E comprar uns quilos de maquilhagem berrante.
Para Senhora, Senhora e Meia! 

PS - E não precisei de ir à Universidade da Terceira Idade para finalmente aprender a inserir links neste maldito blogger!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mais Marley, menos Prozac


Para assinalar a catrefada de tempo que eu deixei passar sem escrever neste blogue, vou ser extemporânea.
Há dias vi o filme Marley e Eu (não, não foi em DVD, foi mesmo em cinema; vão ao dicionário ver "extemporânea"). Gosto muito do Owen Wilson, não suporto a Jennifer Aniston, mas adoro cães. A última vez que tinha visto a Jeniffer Aniston foi numa repetição do Friends, que não consigo achar piada nem fazendo-me cócegas com uma pena. Mas a última vez que vi o Owen Wilson antes do Marley foi no brilhante Darjeeling Express, cheio de ligaduras, pensos e conflitos interiores muito bem expressos num understatement de representação mais que louvável. E antes disso, numas fotos desfocadas do senhor a sair do hospital depois de uma tentativa de suicídio (ou, como os agentes de imprensa lhe chamam, "acidentes com gás num fogão eléctrico" ou "desventuras a fazer a barba nos pulsos"). O que serviu bastante para pôr o filme em contexto.
As coisas nem sempre parecem o que são e raramente são o que parecem. A imagem certa no contexto certo com a intenção certa pode ter um resultado tão trágico e infeliz como um soufflé que se deixou cozer demais. A comédia nem sempre tem os resultados cómicos desejados. O Will. E Coyote de certeza que acreditava, com todo o coração, que se pisasse aquele X no chão ou pusesse a pata na catapulta, não lhe acontecia nada, tal como não acontecera ao pápa-léguas segundos antes. Mas é preciso ter um coração de pedra para ver aquele focinho a descair sob a sombra da bigorna prestes a cair-lhe em cima e não ficar um pouco comovido. Um palhaço numa festa de anos de crianças é uma coisa muito divertida, até que reconhecemos o palhaço como o nosso orientador de tese de mestrado e nos lembramos que ele costumava ter as mãos a tremer quando dava aulas antes das 10 da manhã.  (Não, isto não é baseado num caso real... acho eu.) Isto para dizer que Marley e Eu é um dos filmes mais trágicos que já vi. Tão trágico que nem sequer chorei.
Talvez seja por causa do ar ainda totalmente despido de esperança no sentido da vida de Owen Wilson (ele às vezes tem ares da Vivien Leigh depois do Eléctrico Chamado Desejo. Passei grande parte do filme à espera que ele dissesse que sempre dependeu da bondade dos estranhos). Talvez seja por a Jeniffer Aniston manter, durante uma hora e meia, uma expressão mais cansada que um soldado americano a fazer a enésima ronda pelo mercado ao ar livre de Bagdade. Talvez seja por o cão morrer no fim e eu no fundo ser uma criança que nunca percebeu muito bem a necessidade narrativa de os cães morrerem no fim. Mas oh céus, que filme tão triste.
Owen Wilson é John Grogan um jornalista admitidamente medíocre que arranja um emprego a escrever crónicas sobre a vida local (um trabalho que ele despreza mas ainda assim considera acima das suas capacidades). É casado com uma mulher que o suporta menos mal e faz um suspiro profundo antes de lhe dizer seja o que for, incluindo "bom dia", e que é claramente mais dotada profissionalmente do que ele, mas que deixa de trabalhar assim que nasce o primeiro filho -- e ela não se importa nada com isso, a sério, é melhor assim, deixa estar ("suspiro"). O melhor -- e, ao que parece, único -- amigo é um repórter correspondente que passa metade do tempo em viagem e a outra metade a engatar raparigas bonitas, tonificadas e dispostas a tudo, e ainda arranja tempo para tomar café com ele e perguntar: "conta-me lá outra vez como é bom estar casado?". Os vizinhos, só os conhece quando um deles é assaltado à porta de casa e isso faz com que se decidam mudar para uma zona ainda mais queque, cara e isolada. 
Por isso, ele compra um cão. A razão oficial do cão é servir de "treino" para terem filhos. Mas, para quem sabe encontrar subtextos e tem alguma formação em psicanálise e/ou mitologia grega, o cão é uma compensação para um complexo de Peter Pan mal resolvido, um cheirinho de hedonismo pagão numa vida apertada em constrições cristãs, um pouco de eros numa existência completamente afogada em tanathos. Prova conclusiva disso? O cão caga onde quer.
Tenho admitir que sou uma dog person. Adoro cães. São fofos, leais, amantíssimos, engraçados, fofos, companheiros, honestos, fofos e atentos protectores. Mas como boa inimiga da ma fé, procuro sempre os potenciais motivos ocultos das coisas, e tenho de admitir: os cães são a perfeita compensação dos espíritos selvagens restritos pelas circunstâncias. A Emily Dickinson tinha um cão. A Elizabeth Barrett  Browning tinha um cão, cuja biografia foi escrita por Virginia Woolf, que também tinha um cão. A Emily Bronte tinha um cão. A Margarida Rebelo Pinto, por exemplo, não tem cães. Estão a ver onde quero chegar?
O que é que se faz com os cães? Passear e brincar. As duas actividades mais sãs e mais ansiadas pelo ser humano. Só que, ao contrário dos seus amigos bípedes, os cães estão-se, muitas vezes literalmente, a cagar: rosnam a quem não gostam, lambem as mãos a quem gostam, cheiram, pisam, esfregam-se e comem o que bem lhes apetece (quando o conseguem apanhar), correm atrás do que querem, saltam para onde querem, e raramente andam em linha recta. A natureza, dizia Hundertwasser, não tem linhas rectas. O coração humano tão-pouco, mas muitas vezes vivemos vidas desenhadas à régua.
Ok, antes que eu comece a falar como um instrutor de Ioga; estava a tentar ilustrar o papel do Marley na vida daquele jornalista frustrado, marido mal-amado, pai pouco capaz e escritor só por acidente famoso, John Grogan. Um dos fios narrativos do filme é (haha, trocadilho) a trela do cão. O Marley, como sabem todos aqueles que se dão ao trabalho de ler subtítulos, é o pior cão do mundo. Porta-se - de todas as maneiras possíveis - mal. Por isso, anda sempre de trela (vão passear para uma praia de cães mas se um cão se portar mal na praia é expulso dela) -- que passa grande parte do filme a partir para correr atrás desse Algo eternamente transcendente, efémero e simbólico (ou de um gato). Num momento perto do fim, Marley e o dono estão na praia. Estão a dias de mudar para outra cidade, onde o dono vai começar um novo trabalho (presumivelmente uma promoção, para a qual ele não se sente nem preparado, nem motivado, nem qualificado), levando consigo uma mulher algo reticente ("suspiro. Bom, queres mesmo este emprego, não é?") e uns filhos que estão entre o hiperactivo e o desordeiro. Num acto de transferência que faria com que Freud se engasgasse na bebida ou começasse a tossir insistentemente e a bater com a caneta no bloco de notas, o jornalista decide: what the hell. Este cão andou de trela a vida toda, preso enquanto via todos os outros a brincar e a correr. Ele merece um momento de liberdade. E solta o cão. Que, numa sequência mediocremente musicada, corre pela praia, saltita ao redor de outros cães, abana-se freneticamente... e depois, prontamente, caga à beira-mar.
Mais tarde, não se percebe se como consequência directa disto ou não, eles mandam abater o cão. A devota esposa, que foi dona do cão desde antes de ser mãe, fica em casa porque tem mais que fazer. Os miúdos, que têm um pai depressivo, uma mãe passiva-agressiva e vivem numa quinta isolada onde neva durante 9 meses por ano, têm inveja do cão ( e, um dia, virão a entrar pelo liceu adentro com caçadeiras, estou convencida). O homem vai despedir-se do seu fiel amigo e chora compungentemente ao testemunhar esta castração simbólica ritual. Depois escreve um livro que é publicado em toda a galáxia e o leva a ganhar biliões de carcanhol. O fim.

Sabem aquela cena de cinema quando o público não gosta de um filme e começa a atirar pipocas para o ecrã? Pois é. Eu fiquei com vontade atirar Prozac para o ecrã.

E chamam a isto comédia? Por favor. Para a próxima já sei: quando me quiser rir, vou ver o E Tudo o Vento Levou ou uma daquelas sitcoms do Bergman!